Dia 30 de agosto de 1988, Palácio Iguaçu, Curitiba, há exatos 22 anos. Uma data que os educadores paranaenses não gostam de lembrar – mas precisam. O Sindicato dos Trabalhadores da Educação Pública do Paraná (APP) organizou uma greve em prol do reajuste salarial da categoria. A manifestação – pacífica da parte dos grevistas, vale salientar – começou no Colégio Estadual do Paraná, e teve adesão de milhares de professores. O vídeo acima mostra como terminou esse triste episódio: em repressão policial, em violência. É o Estado, mais uma vez, provando que pode muito bem usar aquilo que lhe difere dos outros setores sociais: a coerção.
Mais de duas décadas depois, novos professores aderem ao movimento em prol da categoria dos educadores. Lembrando-se desse episódio lamentável, que é a maior prova da representatividade da APP, cerca de dez mil professores da rede pública paralisaram as atividades hoje, dia 30, em diversas cidades do estado. Em Londrina, houve uma manifestação no Calçadão Municipal às 9h. Os pedidos são singelos perto da importância destes profissionais: equiparação salarial com os demais servidores do estado que necessitam de nível superior para o exercício da profissão – isso implica em um reajuste de 25,97% para a categoria; redução do número de alunos por sala; pagamento de auxílio transporte, dentre outras medidas.
O piso salarial de um professor de escola pública no Paraná é, por lei, R$1.024,00. Valor ainda abaixo do esperado, apesar de ser maior do que os R$950,00 propostos antes pela Lei de Diretrizes Básicas da Educação (LDE) até 2008. Comparado à importância que os professores têm para o andamento de uma sociedade forte, saudável e coesa, ainda é pouco. E os outros problemas perduram desde 1988: salas lotadas, baixo investimento, capacitação deficiente. Mais um ano de luto se passou. O mais importante, contudo, é que uma nova geração de educadores está se conscientizando de que essa luta não deve cessar.
Ao chegar em casa à noite, cansado do trabalho, o brasileiro médio – classe C, pouco escolarizado, cumpridor de um itinerário de trabalho de 40 horas ou mais na semana – senta no sofá da sala, por volta das 20h, para um passatempo comum: assistir à TV. Como já é de se esperar, visto que estamos em época eleitoral, esse cidadão depara-se com o Horário Eleitoral Gratuito e com figuras pitorescas como esta concorrendo a uma cadeira na Câmara dos Deputados:
Por esses e outros motivos, como o curto espaço de tempo para a exposição das propostas, sobretudo entre os concorrentes ao Legislativo federal e estadual, o Horário Eleitoral é motivo de piada por muitos. Mas, de um tempo pra cá, não raro é acompanhar a ascenção de “políticos” de primeira viagem, que se candidatam com músicas parodiadas e mal feitas e propostas inexistentes. Os cidadãos elegem esses candidatos muitas vezes como forma de protesto em relação à situação degradante da política nacional. Mais interessante ainda é atentar-se para o fato de que isso é estratégico, e de uma forma que muitos não imaginam. O método é o Quociente Eleitoral (QE), ou eleição partilhada, e só é aplicado nas eleições para o Legislativo (deputados federais, estaduais, senadores e veradores). Acesse aqui para saber mais (recomendo o acesso, pois não vou me alongar na postagem).
O QE é o resultado da divisão do número de votos válidos pelo número de vagas disponíveis. Esse resultado decide qual partido terá eleitos efetivamente. Em tese, personagens como o Tiririca e Ronaldo Esper podem puxar muitos votos para as suas respectivas coligações (assim como Enéas e Clodovil Hernandez fizeram há algum tempo), e isso elegerá mais políticos de seus partidos, mesmo que os votos que os outros candidatos tenham não sejam suficientes para elegê-los, se analisados e comparados separadamente com os outros. No fritar dos ovos, nosso voto vai primeiro para o partido/coligação e tem a possibilidade de eleger quem essa coligação achar melhor. O método do QE ajuda a manter os tradicionais políticos e seus redutos eleitorais, arrastando seus mandatos às vezes por décadas (no caso dos deputados federais, a reeleição é ilimitada). Por fim, a situação piora quando consideramos que uma parcela ínfima dos cidadãos votantes sabe desse processo.
Com um sistema eleitoral mascarado, não chegaremos ao livre exercício da democracia. A resposta para a piada do Horário Eleitoral gratuito está dada, mas a resolução desse problema ainda está, ao que parece, distante.
Há mais ou menos 25 anos, quando o Brasil abandonava a ditadura como forma de governo e iniciava um processo de redemocratização, era comum a dominação de regiões distintas do país por coronéis e chefes autoritários – militares ou não – que exerciam total influência no processo político e social de suas áreas de atuação.
Quase três décadas após o fim da ditadura militar, o Brasil ainda sofre com a miséria de ter enormes regiões governadas por famílias que enxergam na democracia uma espécie de monarquia hereditária.
Acontece que esses políticos não utilizam mais a força militar para emplacar seus filhos, netos, sobrinhos e cunhados nos cargos que lhe interessam. A influência agora ocorre por meios legais – pelo menos judicialmente – que induzem o cidadão portador de título eleitoral a confiar seu voto nos mesmos de sempre. As fortunas queimadas com propaganda oficial do governo são meios aprovados pela constituição e nutrem a grande popularidade dos barões da política brasileira. Como se não bastasse, a falta de educação pública joga a favor dessa classe dominante. A ignorância colabora com a falta de informação e desencadeia um processo de total alienação da população.
Observando o recente crescimento da economia, que há alguns anos era impossível de se imaginar, fica evidente que a falta de investimentos em educação é, além de um descaso, um interesse político. Os cidadãos desprovidos de educação e consciência crítica são os votos que elegem os políticos e suas famílias. O dinheiro gasto em campanhas e propagandas resolveria o problema da precariedade de nossa educação pública.
Sob essa perspectiva, conseguimos entender porque os índices de desempenho escolar são mais baixos nas regiões governadas pelos mesmos sobrenomes há várias décadas. Estados como Maranhão e Bahia, eternamente dominados pelas mesmas famílias, apresentam desempenhos pífios na avaliação escolar. Entretanto, seus governadores e senadores continuam colecionando cargos e batendo recordes nas votações.
E essa descabida opção dos políticos por seus filhos e afilhados continua castigando os verdadeiros filhos do Brasil.
Há dois dias, um vídeo com o presidente Lula e o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, virou hit na internet. O garoto Leandro, de 17 anos, conversa com o presidente e o governador a respeito de um complexo esportivo recém-inaugurado na comunidade onde mora. Leandro afirma que o local não abre aos fins de semana, que não pode jogar tênis e nem nadar. A reação de Lula é imediata, e, sem saber que estava sendo filmado, pede ao governador Cabral para que “coloque vigias no lugar”, porque, “se a imprensa vir e encontrar essa ‘porra’ fechada, o prejuízo político será infinitamente maior do que colocar dois guardas alí”. Ao ouvir as declarações do menino, o governador Sérgio Cabral também solta o verbo. “Otário, isso aí é discurso de otário”, diz Cabral, também sem saber que estava sendo filmado. Veja o vídeo:
Lembrando que saiu recentemente uma nota sobre as condições físicas de Ronaldo e que elas não são lá muito boas. Vai ver essa coincidência temporal entre profiles explique: Ronaldo passa muito tempo no Twitter.
Aí teve uma vez que eu fiquei doente, tomei umas cinco injeções num dia só e minha bunda ficou parecendo um regador. Foi aí que começou um pavor absurdo de agulhas. Não podia ver picada no braço dos outros. Desmaiava quando ouvia a expressão “medicamento intravenoso”.
Resolvi que precisava lidar com isso e prometi que ia doar sangue. Tentei uma vez lá na UEL, mas fui impedida por uma taquicardia que deu quando a moça enfiou a agulha no meu dedo pra tirar uma pequena amostra. Depois disso, nunca mais.
Reconsiderei a possibilidade quando uma amiga precisou de sangue. Alguém doou sangue e ajudou a minha amiga, eu também posso doar e ajudar a amiga de alguém. E também, a gente nunca sabe quando vai precisar.
Nunca sabe mesmo.
Meu pai fez uma cirurgia de urgência pra trocar uma das válvulas do coração. Foi essa semana. Ele precisou de muito sangue – imagine um procedimento onde o peito precisa ser aberto (ossos e tal) e é feita uma circulação extracorpórea. Então. Agora o hospital pede que a família arrume 25 doadores pra repor o volume usado. Pode ser de qualquer tipo e vai salvar outras amigas e outros pais por aí.
A gente nunca sabe quando vai precisar.
Ontem, depois de tomar muita coragem, eu resolvi ir. Pensei na internação do meu pai e em todas aquelas mangueirinhas com soro enfiadas na mão dele o dia todo, na cirurgia e na recuperação que não está sendo nada fácil. 15 minutos com uma agulha no braço e uns mililitros de sangue a menos não são nada perto de tudo o que ele tem passado. Pra alguém que esteja passando pela mesma coisa que ele – ou até pior – isso é muito.
Agora eu gostaria de fazer um pedido pra quem doa ou quer doar sangue.
Caso alguém se interesse em fazer parte dos 25 doadores que minha família precisa conseguir, é só chegar lá no IHEL (Instituto de Hematologia de Londrina, fica na Rua Senador Souza Naves, 665) e dizer que quer doar em nome de Roberto Lopes Dias. Os doadores precisam ter boa saúde, mais de 50 quilos e no mínimo 18 anos. (Tem outros requisitos também. Dá pra ler aqui)
Em algum lugar da cidade alguém que receber seu sangue vai ficar muito agradecido. Assim como eu sou grata aos donos daquele sangue que colocaram no meu pai.
O adeus, o polvo e um pouco de tudo Rodrigo Fernando
Final de Copa do Mundo. Preencher o último resultado na tabela, olhar meio melancólico pra TV e esperar pela próxima. Uma final de Copa sem pátria não tem graça. Até tentei torcer pra Espanha (um apego quase inexistente a minhas distantes raízes), depois pra Holanda, não me empolguei. A síndrome de pipoqueira não abandona a laranja mecânica, terceiro vice é demais. Em números de segundo lugar só perde para o Hauly. Depois dessa super reflexão, decidi ser imparcial. Na minha forçada neutralidade, lutei contra o sono, jogo chato. Restava reclamar do árbitro que apitava tudo, distribuindo cartões amarelos às dezenas (sem exagero, tenho a impressão que ele deu 30 cartões amarelos e na verdade foram quatorze).
Holanda e Espanha estavam com medo de ganhar. Não chutavam, raramente iam ao ataque com firmeza. David Villa tentou e depois desistiu. Sneijder teve raros momentos do brilho que demonstrou durante a competição. E a todas essas o árbitro com seu apito fazia mais barulho que as vuvuzelas. Como disse um amigo meu: “duas seleções pipoqueiras na final, vai ser empate eterno”. Ele quase acertou. Quando eu já tinha perdido as esperanças e esperava pelos pênaltis, Fábregas, que passou quase toda a Copa no banco, deu um passe na medida para Iniesta que, sem medo, colocou uma estrela na camisa da Fúria.
Não foi das melhores Copas. Não que eu tenha assistido muitas, mas isso não importa. Se estou dizendo que não foi boa é porque não foi e você, caro leitor, tem que acreditar. Ok, talvez não. Apenas alguns jogos empolgaram, em especial os do Uruguai e do Paraguai também (Ah, Larissa Riquelme!). A Alemanha surpreendeu o mundo com seu novo futebol. Rápido, habilidoso e jovem. Fórlan foi o destaque da Celeste e fica merecidamente com a Bola de Ouro. O camisa 10 uruguaio não chegou badalado à África como Cristiano Ronaldo, Rooney, Kaká e Messi, mas fez muito mais que todos eles juntos. Decepção também por parte de italianos, franceses, argentinos e brasileiros, nenhum indo além das quartas-de-final.
Mas destaque mesmo fica para Paul, o polvo, molusco vidente. Paul mora em um aquário (jura?) dentro de um bar. Passou os últimos anos assistindo jogos, programas esportivos e ouvindo palpites, anotou tudo e usou seus conhecimentos para ficar famoso e quem sabe descolar uma polva (em uma das inúmeras reportagens sobre ele, descobri que é virgem). Em algumas vezes foi ousado, acertar que a Sérvia venceria a Alemanha foi uma jogada de mestre, Paul. Já as apostas na Espanha foi medo de virar paella, né?
Resumo rápido da Copa da África: campeão indo embora na primeira fase, técnico se recusando a cumprimentar o amiguinho de profissão, outro comendo cacas do nariz, uns brigando com jornalistas e o campeão parece o Leôncio. Vidência (Paul, você de novo), violência (Felipe Melo, aquele abraço!), jogadas geniais (cri, cri, cri), a bola –que deixou de ser bola e passou a ser jabulaaani – e até goleiro pegador. Termino com esse momento cheio de ternura.
Zangando Dunga foi postado no período pré e durante a Copa, essa é a última. Obrigado a quem perdeu uns 2 ou 3 minutos de suas vidas para ler os textos aqui publicados.
Sátiras políticas existem aos montes, embora a maioria seja de péssimo gosto. É muito fácil relacionar política a chacota, nossos representantes sempre nos dão vários motivos para isso – e, se não derem, tratamos de inventá-los aos montes. Uma dessas sátiras se destacou há alguns meses na internet. La Isla Presidencial, série de animação criada pelos venezuelanos Oswaldo Graziani e Juan Andrés Ravell, faz sucesso e acumula milhares de acessos no Youtube e também no próprio blog em que começou a ser circulada, o El Chigüire Bipolar (“capivara bipolar”, na tradução, que seria, penso eu, um apelido carinhoso ao presidente Chavez). Acesse aqui.
Na série, 12 presidentes de países latinoamericanos, entre eles Chavez, Lula e Evo Moralez, e o rei da Espanha, Juan Carlos I, saem para uma viagem após uma reunião na cúpula sulamericana. Eis que, durante o percurso, pegam uma tremenda tempestade e acabam ilhados. Após isso, os líderes têm de tentar sair desse lugar pouco confortável com vida e esbarrando nas ideologias, manias e safadezas de seus pares.
As tiradas políticas são demais. É notável o espírito de “liderança bolivariana” de Chavez, que talvez é o mais zoado da série. Também é de se considerar a (boa) influência da série estadunidense “Lost” na composição do roteiro. A personalidade dos líderes, apesar de estereotipada e exagerada, como em toda comédia, é retratada muito bem: Lula, o “apaziguador indeciso” (não vira “nem à direita, nem à esquerda”); Chavez, o “fanfarrão e agitador neo-socialista”; Uribe, o “conservador nojentinho”. Segundo uma entrevista dos criadores, a ideia de fazer a série surgiu após um encontro da cúpula sulamericana em 2007, quando o rei Juan Carlos I mandou um sonoro “cala a boca” ao venezuelano Hugo Chavez. A série, por enquanto, teve seu quarto episódio lançado neste domingo (11), mas só os dois primeiros foram legendados em português e postados no Youtube para o deleite dos fãns brasileiros.